Pra onde foi o ideal de beleza dos anos 50?- Parte I: Sobre o manequim de Marilyn Monroe, modelos magérrimas e enganos comuns

quinta-feira, 16 de julho de 2015

"Quando isso se tornou mais sexy do que isso?" Talvez...nunca?

“Ah, o mundo era tão melhor nos anos 50”, suspiram os saudosistas de tempos os quais nem viveram. “As mulheres eram curvilíneas, femininas, sensuais e saudáveis e não essas modelos anoréxicas”. Esse mantra foi perpetuado e repassado mil vezes junto de imagens de  celebridades dos anos 50 ao lado de celebridades atuais, suspirando por uma época onde a aceitação era maior, as curvas eram celebradas, as modelos eram bons exemplos de corpos realistas, o peso não importava e a beleza era vista em todos os tamanhos. Exceto pelo fato de que isso nunca existiu. É uma época fictícia, uma romantização baseada nos resquícios da década que a gente recebe da cultura pop e mais nada. Eu sou uma grande entusiasta do período, não me levem a mal por quebrar essa ilusão, mas não foi uma época de perfeição e aceitação, nunca houve uma época assim. A internet e sua facilidade em espalhar conteúdo que induz ao erro só contribuem para que as pessoas admirem a maravilhosa década de 50 pelos motivos errados.  Para esclarecer esses e outros enganos comuns aos iniciantes no mundo da moda e do vintage, decidi fazer dois posts sobre o assunto. Esse é o primeiro.


As tais medidas de Marilyn Monroe e medidas num geral...
Marilyn e suas famosas curvas

Nesses últimos meses já entrei em mais discussões sobre as oscilações de peso de Marilyn Monroe do que deveria e do que gostaria, e não, ela não passava nem perto de um manequim 46 mesmo durante as suas famosas oscilações de peso.  Ela possuía 1,66 de altura e seu peso máximo foi de 63 kgs. Traduzir isso em medidas é difícil, mas fica a experiência empírica: tive esse peso com menos altura e não passei do manequim 40. Excluindo essas variações, é sempre muito bom lembrar que sua figura de ampulheta extrema lhe dava uma cintura mínima em todos os pesos que teve. As medidas da maior parte da sua carreira eram 92 de busto, 55 de cintura e 92 de quadril.
pasmem, uma cintura maior que 
a de MM

Sim, você leu certo: cinquenta e cinco centímetros! Isso, meus caros, é menor do que um tamanho 32 ou um size zero possuem de cintura. Da próxima vez que você pensar nela como um modelo de corpo natural e realista para a mulher moderna que veste 46, lembre-se de que sua cintura era menor do que a da Twiggy, famosa modelo magrela e retíssima, que tinha 58 cm. Fazer uma moça de tamanho 46 se comparar com uma modelo de passarela é injusto, mas fazê-la comparar seu corpo com uma mulher de 55cm de cintura também é um tanto surreal. Além disso, suas famosas fotos na praia trajando um lindo maiô branco foram tiradas enquanto ela estava grávida.


grávida e linda 
Monroe e sua
cinturinha


Falando de medidas em geral, esse mito começou lá fora onde disseram que ela usava um size 16, que corresponderia a medida da mulher americana comum. Só não contavam com o fato de que desde os anos 80 as confecções começaram a usar o “vanity size” que nada mais é do que dar a manequins maiores números menores sem diminuir suas medidas. Ou seja, o size 16 de antigamente equivale a um size 8 atual que também não é o manequim dela: os vestidos usados por ela em O Pecado Mora ao Lado não conseguiram entrar em um manequim size 2 (um 34 aqui) pois ele era grande demais.  Um manequim 34 era grande demais pra sua cinturinha, durmam com essa.
O corpo ideal, o corpo real e a publicidade
Média das medidas da mulher dos anos 50 e atual, feita por pesquisadores do Reino Unido
Betty Grable


 O corpo tido como ideal era a silhueta ampulheta. Comparando a mulher média dos anos 50 com celebridades (Marilyn 92-55-92, Betty Grable 91-60-90, etc) veremos que embora partilhem da figura ampulheta, as famosas são menores do que a mulher comum e suas medidas: 93-68-99. Até mesmo as pin-ups, então, eram mais magras do que a mulher da época e isso faz sentido se observarmos o padrão de beleza como a maximização de todas as características consideradas bonitas naquele tempo e se pensarmos que atraíam mídia e fama as modelos e atrizes que chamassem a atenção pelo exagero dessas características: cintura fina, quadril largo, seios fartos, figura esguia. Considerando as ilustrações de pin-ups que usam de referência moças reais isso fica ainda mais evidente: com frequência eles tornam essas mulheres normais em mulheres padrão e suas cinturas são diminuídas, cabelos alongados, seios aumentados.
Modelos e ilustrações de Elvgren, mostrando a pin-up como o exagero das formas femininas

Uma de tantas propagandas
promovendo emagrecimento
A diferença pode parecer pouca para nós, mas vale lembrar que naquela época os recursos da mulher comum para atingirem esse padrão também eram escassos(afinal, se fosse assim tão acessível não gerava dinheiro e é pra isso que o padrão serve) e pior ainda para as muito desviantes desse ideal que também sofriam pressão midiática e publicitária pra adequarem seus corpos, como podemos ver nessa publicidade infame da marca de cigarros Lucky Strike que contraria toda e qualquer expectativa de aceitação e glorificação do corpo plus size na época. Nem se usássemos a mulher real dos anos 50 como exemplo de corpo belo e atingível teríamos um padrão acessível pras mulheres de hoje em dia, já que o tamanho e principalmente a estrutura do corpo aumentaram e muito: 97-86-101. Estamos mais altas, maiores e muito menos curvilíneas. Convenhamos que querer atingir o corpo de modelos magérrimas é pedir pra sofrer, mas se comparar com mulheres que além de mais magras possuem estrutura corporal divergente da sua também não é o melhor dos exercícios de aceitação do mundo e também não ajuda as garotas plus size se compararem com corpos tão pequenos e de curvas tão mais acentuadas em forma de ampulheta do que o tipo de corpo retângulo mais comum atualmente. Fora isso, esses comparativos entre as mulheres sensuais de antigamente e as magrelas atuais nos leva a crer que a mulher curvilínea era a única bela segundo o padrão dos anos 50, mas seria mesmo o corpo pin-up a única opção para atrizes, modelos e mulheres dessa época?  A magreza sem tantas curvas era feia e mal vista pela mídia nos anos 50? Responderei essas e outras perguntas na segunda parte desse post, mas deixo aqui uma dica:

Audrey Hepburn  e suas medidas 86-50-90

Vejo vocês na segunda e última parte desse post:
Pra onde foi o ideal de beleza dos anos 50? Parte II: Sobre supermodelos dos anos 50, celebridades atuais e outras coisas que esquecemos

3 comentários:

  1. Obrigada, Sarah <3 Isso resume meus sentimentos :333

    ResponderExcluir
  2. Parabéns pelo texto e pensamento maravilhosos! Muito obrigada 😍

    ResponderExcluir
  3. Obrigada pelo post mega informativo. Sempre desconfiei que essa exaltação do corpo "plus" (curvilíneo, na real) era uma fabulação generosa sobre o passado. Obrigada pelos dados!

    ResponderExcluir

Blog contents © The Neon Lightning 2012. Blogger Theme by Nymphont.