Selfie-Obliteration: Yayoi, Sarah e Obsessões diversas

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Yayoi Kusama é uma artista japonesa conhecida por suas obras repetitivas e imersivas, inspiradas por suas alucinações.  Suas obras envolvendo formas circulares lhe renderam o título de Princesa dos Poás (Princess of Polka dots). Ficou conhecida nos anos 60 em Nova York pela sua associação com a Pop Art e consolidou sua fama com seus happenings controversos envolvendo corpos nus envolvidos por suas características bolinhas.  Voltou ao Japão nos anos 70 e mora desde então voluntariamente em uma instituição psiquiátrica onde produz suas obras até hoje,  sendo considerada uma das artistas vivas mais influentes.



Pra quem não sabe (ou seja, não é de São Paulo, vive debaixo de uma pedra ou não tem instagram e não foi bombardeado com as fotos) a exposição Obsessão Infinita que tem como objetivo mostrar alguns dos pontos mais importantes de sua carreira está por aqui gratuitamente no Instituto Tomie Ohtake desde 21/05 até 27/07.  Tive o prazer de visitá-la duas vezes. Da primeira vez, com mais tempo e mais calma, fui para vê-la cuidadosamente e o caráter obsessivo e visceral da arte de Kusama ao vivo é ainda mais encantador. O infinito presente na natureza dos medos, alucinações, seu amor e esperanças é expresso fielmente pelos seus quadros feitos ininterruptamente por dias, que ultrapassam os limites das telas (até literalmente, já que até as bordas de seus quadros são pintadas) e chegam até o espectador.  O que me atrai na arte dela é essa ligação intrínseca com seus sentimentos, ela só vive através da pintura e expor seus medos e suas paixões não é opcional, é questão de sobrevivência e de manter a sanidade mental.  Você jamais veria Kusama falando sobre seu trabalho de uma forma técnica, sobre como gostou ou não gostou de alguma textura. É tudo baseado em sensações e na subjetividade.

“Minha vida é um ponto perdido entre milhares de outros pontos.” – Yayoi Kusama
O que me levou a buscar a exposição uma segunda vez foi algo a parte de Kusama que aconteceu naquele ambiente. Pra começar: muita, muita gente. Filas quilométricas todos os dias da semana, em praticamente todos os horários. Se alguém duvida da influência de Yayoi, pergunte a qualquer um que foi na exposição sobre a quantidade absurda de gente. Nos finais de semana e na proximidade do fim da exposição, as filas chegavam a quarteirões de distância do prédio. Dentro da exposição me chamou a atenção a quantidade de fotos tiradas, mas não qualquer foto...selfies! Selfies em frente aos quadros, selfies com as esculturas, era tanta gente tirando autorretratos que ficava difícil até de visualizar qualquer coisa que seja. Nas salas interativas era compreensível a correria pela foto perfeita: pela quantidade de gente querendo entrar e pelas filas (sim, outras filas dentro da exposição), só era possível passar de 20 a 30 segundos em cada uma, mas mesmo assim a falta de apreciação do momento me incomodou. A correria de flashes marcou a experiência para mim e me fez pensar em obsessões: Seria essa uma obsessão com fazer parte da arte de Yayoi ou a obsessão pela auto-imagem que, dizem os críticos, marca mais a nossa geração do que qualquer outra? Era a obsessão por ser espectador de obras tão marcantes ou de fazermos nós mesmos os nossos espectadores através de instagrams, facebooks e derivados?


“Esqueça-se de si. Seja um com a eternidade. Seja parte do ambiente.” – Yayoi Kusama

 É possível obliterar uma expressão tão óbvia da auto-imagem? Foi o meu questionamento. Li sobre Yayoi, vi suas fotos onde se camufla em suas obras com suas roupas e voltei lá decidida a entrar nas salas interativas e fazer parte de todos os ambientes o máximo que conseguisse,  a ter a experiência de ser parte de Kusama e não apenas estar lá como espectadora gerando outros espectadores (de mim, e não dela). Queria que nos fundíssemos numa coisa só, eu e suas obras, sem que uma se apagasse em detrimento da outra,mas sim as duas juntas formassem outra forma de expressão única. Se a eternização daquele momento se daria através de fotos então eu não queria apenas um pano de fundo para uma foto minha e sim criar outra obra fotográfica onde eu me oblitero nela e ela em mim, e de repente não somos mais separáveis. 

“Certamente eu devoto minha vida a contar minha história pessoal e procurar a auto-obliteração. Porém, eu não vou destruir a mim mesma através da arte.” – Yayoi Kusama

Pintei o cabelo, separei as roupas de acordo com cada sala e saí nessa cruzada fotográfica numa tarde chuvosa e fria de quinta-feira da última semana de exposição (também conhecida como ontem, dia 24). Depois de mais de duas horas numa fila com minha ocasionalmente fotógrafa e fiel escudeira nos reveses da vida (popularmente conhecida como minha irmã), entramos no Instituto Tomie Ohtake. Para nossa sorte, as filas lá dentro não estavam tão grandes e deu tempo de entrar em todas as salas mais de uma vez, inclusive pegando várias salas totalmente vazias no final da exposição, o que foi de uma sorte absurda e acabou me ajudando ainda mais. Fiquem com esse projeto (dá pra chamar de arte da performance?) carinhosamente chamado de “Selfie Obliteration”.
Na sala "Filled with the Brilliance of Life"


“Pontos são um símbolo do mundo, do cosmos. A terra é um ponto, a lua, o sol, as estrelas são todas feitas de pontos. Eu e você, nós somos pontos.” – Yayoi Kusama

“Acumulação  é como as estrelas e a terra não existem sozinhas, mas o universo inteiro é feito de um acúmulo de estrelas. “ – Yayoi Kusama
Na sala "I'm Here, but Nothing"

Curiosidade boba: nessa sala a coisa deu tão certo que teve gente achando que eu fazia parte da exposição. Cabelo e unhas pintados com a única finalidade de brilharem nessa sala.




“Se eu colocar poás em meu corpo e cobrir o fundo de poás, os poás em meu corpo fundindo-se com os do fundo criarão uma cena óticamente estranha.”-Yayoi Kusama
Na sala Infinity Mirror Room - Phalli's Field (Floor Show), foto e figurino
baseados em foto da própria Yayoi Kusama


“Tenho uma enchende de idéias em minha mente. Eu apenas sigo minha visão.”-Yayoi Kusama





“Certamente eu devoto minha vida a contar minha história pessoal e procurar a auto-obliteração. Porém, eu não vou destruir a mim mesma através da arte.” – Yayoi Kusama


“Quando era pequena, experimentei esse estado de obsessão infinita, então pintei o mesmo motivo incansavelmente. Quando pintava, encontrava o mesmo padrão no céu, nas escadas e janelas, como se estivesse por todos os lados. Cheguei perto para tocá-lo e começou a subir pelo meu braço também.”-Yayoi Kusama



"Eu, Kusama, sou uma Alice no País das Maravilhas moderna."
E eu habitei, enlouqueci e fiz parte desse país maravilhoso que tanto me impressionou e despertou algumas obsessões artísticas em mim também.

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