Sobre o exótico previsível, padrões e barbies tatuadas

quinta-feira, 26 de junho de 2014


Barbie Tokidoki
Curiouser and curiouser!

Alguns anos atrás, eu ainda estava começando a construir minhas preferências e visão do mundo em todos os assuntos. Eu era curiosa tanto quanto sou hoje, e na época onde a vida era doce eu queria experimentar um pedaço de cada coisa nesse mundo pra decidir o melhor sabor para mim. Foi assim que a arte me atraiu. Não há resposta errada na arte. Há o seu caminho e as melhorias que você faz enquanto o segue, sua visão própria possui um lugar e uma beleza que depende de você para existir, como um mundo colorido e caleidoscópico que só existe através das suas lentes. Eu não queria encaixar todo o meu esforço em uma resposta certa, eu queria fazer perguntas e respostas com as minhas palavras e minha identidade. Bem, eu escrevo hoje em dia, então dá pra ter uma noção.

Quando eu transformei o meu vestir, maquiar e apresentar em arte, buscava por isso. Procurava a minha resposta fora da exatidão das fórmulas onde eu não me encaixava. Eu era o 2+2=5. Um dos erros. Mas eu sabia que podia ser mais do que isso, e encontrei fora do previsível pessoas que também procuravam seus caminhos. Algumas criavam outros requisitos e grupos de pessoas com ideais visuais de produção e vestimenta parecidos. Mesmo assim, ninguém ligava muito pra de onde você vinha ou como você era desde que dentro dos parâmetros de cada uma você criasse algo bem elaborado. Fora delas, o céu era o limite. Come as you are.
"Arte é você ser livre de todo o peso do mundo"

E então, começou. A exatidão tomou aos poucos a liberdade criativa como sempre faz: em ciclos, deixando nascer pra se apoderar logo em seguida. Da mesma forma que as coisas novas são imitadas pelas lojas caras e depois pelas populares, o mesmo ocorreu com os corpos-arte. As modas alternativas foram sugadas aos poucos. Exemplo rápido: a procura por “tatuadas” começou como um nicho pequeno e de repente se tornou algo de proporções gigantes, que demandava mais e mais. Para atender bem a esse público crescente, cada vez mais a beleza criativa era roubada pelos padrões. Tipos de cabelo, cor da pele, cor dos olhos, altura, tipo físico. As modelos inspiradoras de estilos ditos alternativos nunca se pareceram tanto com modelos tradicionais, com belezas tradicionais e alguns rabiscos pelo corpo. Algo não mais fazia sentido nisso tudo e eu comecei a pensar que iniciativas como o Suicide Girls se perderam pelo caminho. Bem, talvez não o site em si (cuja proposta sempre foi um site que mostrasse as belezas de todos os tipos, tamanhos, defeitos e modificações possíveis), mas o fato de que o rótulo “suicide girl” virou uma etiqueta para ser colocada em qualquer “gostosa tatuada” e que talvez a Sasha Grey tenha mesmo razão em dizer que “Até onde eu sei, essas (mulheres) tipo Suicide Girls com cabelo preto e tatuagens são as novas loiras de peitos falsos. Todas elas se parecem”. O exótico virou previsível.

beleza convencional ao centro, alternativas ao lado

 “Até onde eu sei, essas (mulheres) tipo Suicide Girls com cabelo preto e tatuagens são as novas loiras de peitos falsos. Todas elas se parecem” - Sasha Grey


Não me leve a mal, eu não sou inimiga da beleza. Esse é um rótulo que não me cabe. Eu enxergo beleza nas coisas e pessoas mais diversas e é justamente isso o que me faz pensar que essa nova lista de padrões e exigências não faz bem a ninguém e que isso sim é muito mais contra o belo e especialmente contra a arte e expressão corporal. Eu não sou contra pessoas que se parecem com modelos, com corpos no padrão, não sou contra loiras de peitos falsos, suicide girls, com gente “gostosa” ou coisa que o valha. O meu problema não é com essas pessoas ou não gostar da aparência delas, ao contrário: amo, é necessário que existam moças assim no meio. O meu problema é isso ser a única opção mostrada e exaltada todas as vezes, como se não houvessem outras. Quero ver esse tipo, mas quero também todos os outros, ou então se chama moda alternativa mas não é uma alternativa real, só a mesma coisa em outra nuance. Talvez a busca pela aceitação do que era diferente fez com que esse diferente quisesse ser menos estranho, quisesse se adequar mais, jogar pelas regras estabelecidas. Num meio onde a diferença é o que é (ou devia ser) exaltado, não faz sentido limitar os corpos e os jeitos a certas fórmulas para que você possa se sentir bem, como quem diz “okay, você pode ousar no cabelo, roupas e nos riscos na sua pele mas pra que sua arte corporal seja bela você precisa de um corpo de revista” ao que as pessoas do meio respondem “okay, eu tenho tatuagens mas eu sou como vocês gostam” e tornam-se o que seu público quer consumir. É colocado um limite do "aceitável". Perdemos um espaço livre de inconformismo para ganharmos mais um lugar onde se julga e se cobra pela beleza e não pela criatividade, arte, execução e inovação. Trocamos o transgredir pelo agradar.



Vendo isso de longe sabe com o quê me parece? Uma linha de bonecas barbie. Podemos ter a barbie versão cabelo azul, versão tatuada, até versão plus size. As roupas mudam: o mesmo shortinho ganha a versão desfiada, a mesma blusinha vira uma cropped de banda e o rosa vira preto, mas no fim do dia estamos vestindo, fotografando, maquiando e modificando várias versões da mesma coisa, feitas na mesma forma e com pequenas modificações, exatamente como a barbie e suas amigas todas iguais com exceção da cor dos olhos e cabelo. Eu poderia dar dezenas de exemplos onde isso acontece, não é só no meio “estilo alternativo/bodymod”. Modelos Plus Size, por exemplo, seguem a fórmula “mulher exuberante cheia de curvas, muito busto, muito quadril, pouca cintura”.  E então as pessoas publicam e compartilham imagens dessas mulheres com a legenda “tão bonita quanto uma modelo” sendo que nenhuma delas é realmente inadequada ao que já está por aí, é só a versão alargada de um manequim 36. Nem a maioria das plus size são assim. Nada disso é realmente transgressor.  Por que não abrimos mais as possibilidades e enxergamos outros lugares onde a beleza pode acontecer? Essas alternativas ao padrão vigente eram necessárias para quem não pertencia a ele e queria se encontrar, mas nesse jogo não é atrás da sua identidade visual, satisfação artística, aprimoramento, criatividade e estilo que se corre atrás: é dos mesmos ideais de sempre pra se tornar mais um dos tipos catalogados de pessoas aceitáveis. Eu me pergunto até onde essas pessoas também não sentem a cobrança em serem desse ou daquele jeito e ainda se sentem inadequadas mesmo num meio que devia ser inclusivo e lugar de gente incomum, estranha ou mal representada pela mídia. Pra quê você necessita uma alternativa nova pra classificar algo que cabe nas respostas antigas? Às vezes enquanto pensamos abrir nossas mentes para o novo, só estamos abrindo nossas prisões, encaixando mais gente dentro e chamando isso de ação inclusiva. Sejam bem vindos vocês também ao cárcere!


Muitas versões de uma mesma coisa: No centro temos dois corpos convencionais e nas laterais, uma alternativa e uma plus size

Edit: Em tempo, gostaria de deixar claro mais uma vez que o meu problema não é com essas garotas. Elas ganham mais destaque porque essa indústria faz assim, e é ela quem conduz as coisas dessa forma. Se gostar como é não vende cosmético e é isso o que faz com que todas nós (alternativas ou não, até no padrão ou não) corramos atrás de ideais impossíveis. Podemos escolher nos conformar e seguir ou nos empoderar e quebrar o ciclo de sermos vistas como bonecas vestidas de tal ou tal jeito e procurarmos nossa liberdade, e é aí onde começa a luta e é esse o meu direcionamento. Se só vemos um tipo de mulher na mídia é porque a mídia só foca um tipo, e não porque só ele existe e deve ser seguido e nem quer dizer que ele seja errado ou que quem o busca é errado. Somos bombardeadas com ele e isso é compreensível e natural, mas não faz bem algum. Para maiores esclarecimentos, leiam esse post aqui

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