Meu corpo, um gatilho? Sobre magreza, thigh gap e roleta russa com uma semiautomática

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Recentemente, a moda dos thigh gaps saiu dos tumblrs afora e veio a conhecimento público: garotas obcecadas com magreza estavam atrás de mais um objetivo, obter um espaço entre as coxas muito visto em modelos e raro até em quem é magra (necessita uma predisposição óssea para existir). A obsessão com magreza não é uma novidade, é crescente o número de garotas com transtornos alimentares e a procura por dietas malucas, cirurgias e remédios com esse fim é crescente. Apesar disso, essa busca em particular causou estranhamento e, óbvio, gerou repercussão.

Thigh Gap


Eu reconheço, de verdade, a boa intenção de quem advoga pelas “mulheres de verdade, aquelas com curvas”. Meu respeito a todos os que reconhecem a beleza em corpos que são maiores do que um manequim 36 e não é minha intenção aqui criar uma falsa simetria, mas sim mostrar outro ponto de vista. Eu sei que a indústria pode não forçar ninguém a ser magro, mas induz e relaciona a beleza com magreza. Eu sei que mulheres com corpos perfeitamente funcionais e incríveis passam por problemas de auto-estima por não estarem adequadas a esses padrões. Carregar o estigma de ser gordo ainda é um problema e faz com que as pessoas se sintam inadequadas em todas as ocasiões, com roupas e espaços que não foram projetados para elas e sofram mais com isso do que magros. Por isso, eu entendo quem fala pelas mulheres não-magras*e pelos seus corpos, mas não acho que essa seja a abordagem correta.

Quando você defende alguém, pressupõe-se que defende de algum ataque. Quando mira a sua defesa em outras mulheres: as magras, as adolescentes, as garotas que correm atrás desse padrão, você está mirando isso no alvo errado. Quando dizem que mulheres de verdade possuem curvas, que magreza é abominável, feia, não atrativa, que mulheres magras são as grandes culpadas pelos transtornos alimentares por serem inspirações doentias a quem desenvolve isso, quando você diz a uma menina magra que ela precisa comer um hambúrguer com urgência, você está mirando no elo mais fraco e não no agente provocador disso tudo. Tomando o mundo da moda como exemplo, o nome da modelo Twiggy sempre é citado como uma referência de pessoas que causaram a mudança do padrão de beleza para a magreza e de mudança da auto-imagem das mulheres. Ela disse em uma entrevista que tudo o que queria era as curvas da Marilyn Monroe. 
Monroe x Twiggy

"Sendo magra, gorda, pequena, negra, loira, ruiva...Você sempre vai querer ser outra coisa" "Eu queria uma fada madrinha que pudesse transformar meu corpo para que ele fosse como o de Marilyn Monroe. Eu não tinha seios ou quadris, e eu os queria desesperadamente"

O meu ponto com isso é que esse jogo de alcançar a beleza perfeita é uma roleta russa com uma semiautomática: não existe ganhar. Quando se trata de auto-imagem, mulheres magras também sofrem disso. A insatisfação gera dinheiro. Você não vai vender uma chapinha para alguém que está feliz com seus cachos, não vende produtos para emagrecer a quem não acha que precisa e nem vende cirurgias plásticas para quem não quer desesperadamente se modificar. O padrão de beleza é inatingível a todas nós, em maior ou menor grau, porque isso dá dinheiro. Modelos magras são ainda mais emagrecidas e photoshopadas, fotos de atrizes sem maquiagem ou na praia ainda causam espanto. Mulheres fazem plásticas em busca do corpo cada vez mais inatingível e cheio de exigências como o tal magérrima com curvas que, para a maioria das mulheres, é uma utopia.  Quando você tira esse peso de emagrecer de uma mulher e enaltece seu corpo precisando, necessariamente, desqualificar outros corpos de outras mulheres também cobradas e inseguras você está jogando a sujeira pra debaixo do tapete. Rebaixando uma para que a outra cresça. Desnecessário.


minha expressão ao ouvir
esses disparates
Eu, pelos padrões, sou considerada magra. Eu tenho thigh gap, ossos aparentes e todo o resto. Sou constantemente submetida a questionamentos sobre minha saúde, sobre transtornos alimentares, piadas dizendo que só quem gosta de magras são peruas e estilistas e a “elogios” geralmente citando homens, cachorros e ossos. Gente tentando me empurrar comida a todo instante (levo no humor: sendo de graça, estamos aí), revistas que, ironicamente, mostram mulheres diferentes de mim e perguntas sobre minhas pretensões e pensamentos acerca de silicone. Ou gente achando que eu fiz pacto com o demo e remoção de costelas (É sério. Já posso me considerar o Marilyn Manson?)

Não estou boa o suficiente, ninguém está. Quando você diz que o meu thigh gap é um indicativo de anorexia, que eu tenho problemas de saúde sem ter conhecimento do meu histórico médico, que eu sou a razão da baixa auto-estima de outras garotas, que minhas fotos ajudam a desenvolver  problemas de saúde, que eu sou uma vilã e que o meu corpo é um gatilho que incentiva a isso tudo, você está dizendo que a culpa de toda uma indústria pautada na insatisfação corporal é minha e de tantas outras garotas que calharam de serem “aceitas” nesse ponto porém ainda rejeitadas em mil outras coisas e ainda comprando cosméticos para se sentirem melhor. Você está dizendo que a Twiggy é a causadora da epidemia de anorexia sem perceber que ela, na época, fugia aos padrões corporais e que sua imagem foi usada para criar uma nova moda e fazer mulheres correrem atrás de outro tipo de corpo como cachorros correm atrás do próprio rabo.
Ditto, sempre maravilhosa

O seu inimigo é o mesmo que o de todas as outras, mas você está atacando mulheres que são apenas dano colateral desse sistema.Você está se pautando na mulher da revista como vilã e esquecendo que existe muito mais por trás dela. Você faz o que condena: prega que alguém tem que se sentir envergonhada por seu corpo.  Transforma a mim e mais outras tantas em vilãs, estereótipos, alvos mais fáceis a se atingir.Não caibo nesse papel. Não fui eu, ou Twiggy, ou Monroe, ou Kate Moss, ou Kim Kardashian, ou Queen Latifah ou Beth Ditto que decidiram o que seria valorizado ou desprezado. Não foi de nenhuma de nós, gorda, magra, curvilínea, reta, anoréxica, obesa, que partiu essa ideia genial de criar um padrão.

Com curvas ou não, eu ainda sou uma mulher de verdade. Magra, ossos aparentes, thigh gap, sim, mas isso  são algumas características entre muitas outras. Também tenho cicatrizes, defeitos, manias, problemas de auto-estima. Parem de usar magreza ou características isoladas da magreza como elogio ou coisas positivas e usar a palavra gordo como algo ruim e abominável, ser magra ou gorda é uma mera descrição. Meu corpo é apenas um corpo. Não é perfeito, não é melhor que o de ninguém, não é ruim, não é um vilão, não é um gatilho, não é o algoz. Ele é meu, e apenas meu, fruto da minha genética, estilo de vida, com suas marcas e cicatrizes e vivências, usado por mim e para mim. É o que é, e não passa disso. É minha ferramenta para sentir e assimilar o mundo,  eficiente em seu propósito. E é de verdade.



* não-magras porque existe todo um in-between entre um manequim 38 e alguém realmente acima do peso, chamar de “gordinha” soa como se ser gordo fosse algo ruim pra ser amenizado, chamar de plus-size idem e de normal implica que corpos possuem um estágio normal e todo o resto é anomalia (quando existem biotipos dos mais variados).
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