Text Tuesday #6 - Um dia de cada vez...

terça-feira, 11 de setembro de 2012


Um dia de cada vez...

O despertador cumpria sua função de todo dia, a de ser o emissário dos gritos das almas do inferno que te arrancam do acolhedor sono profundo. Primeira observação do dia. “Talvez nem mesmo a danação eterna seja capaz de me tirar dessa cama hoje” é a segunda. Dormira mais de dezesseis horas seguidas e o leve torpor do sono misturado com a fome e a pressão baixa se fazem perceber de uma só vez numa fraqueza irresistível, agindo como o canto de uma sereia para um marinheiro, atraindo-o para o mar de cobertas desarrumadas e amontoadas onde, rezam as lendas, foi uma cama feita e decente na noite anterior.

Após a disputa matinal diária da razão (“você deve acordar e cumprir suas obrigações, vai se sentir melhor ao final do dia, sem culpa”) versus a vontade bruta e insistente (“deite-se mais um pouco, não vai render nada desse jeito, ninguém vai morrer se você dormir mais quinze minutinhos”) a promotoria vence e a réu preguiça é condenada a não se manifestar até pelo menos sete e vinte, onde poderá ser vista fazendo-o se debruçar sobre a mesa fingindo uma dor de cabeça qualquer pra poder fechar os olhos alguns minutos e anestesiar o tédio. “É receber presença pra não fazer nada”, pensa, “o melhor dos dois mundos”. A responsabilidade não compareceu ao julgamento. Nunca comparecia.

E desde que conseguia se lembrar levou sua vida assim, um dia de cada vez, um aborrecimento de cada vez, desabando na cama para mais dezesseis horas de coma profundo até que o infernal barulho o arrancasse do paraíso dos sonhos. Mas não naquele dia em especial. É verdade, o despertador cumpriu sua função, mas antes mesmo que pudesse praguejar qualquer coisa, olhou-o e percebeu que já passava das sete e meia e a escuridão permanecia intacta dentro do quarto. As janelas estavam abertas, o problema era definitivamente com o horizonte. Já ouvira falar em eclipse solar e coisa que o valha, mas não viu absolutamente nada ser noticiado em lugar algum. Os transeuntes na rua continuavam em seu movimento apressado, sincronizado, numa dança onde todos precisam chegar ao trabalho sete e quinze senão tudo está perdido. “Tudo o quê, mesmo? Pra quê isso tudo, afinal?” Respirou fundo. Perdera a linha de pensamento.

Um único feixe de luz adentrou seu quarto, seguido de um murmurar ao longe.  Apertou os olhos para ouvir, num reflexo instantâneo e um tanto quanto inútil. Tateou a bancada em busca dos óculos, colocando-os na cara da melhor maneira que pôde.  Meteu o dedo na lente sem querer. Merda. Ah, foda-se! (por alguma razão, acordar de forma abrupta só lhe trazia impropérios à mente). Seguiu o feixe de luz dando com a varanda da sala, onde a voz se fazia mais clara. Não havia nenhuma nuvem no céu, mas aquele raio de luz era único e se fazia insistente.


-Hoje resolvi não aparecer. O dia de hoje foi simplesmente cancelado. Por favor, proceda voltando a cama. Você não está perdendo nada, ainda é noite.

Que diabos, não bastava todo o calvário matinal que passava todos os dias, agora estava alucinando e ouvindo vozes também. Já havia acontecido antes, esses momentos logo após o acordar não são claros, nossa mente ainda está com um pé no sono e outro na realidade, é normal que ela nos pregue peças, bláblablá, já ouvira isso antes. De alguma forma o conselho do astro-rei de imponência ausente, mesmo que fruto de sua imaginação, conseguiu atingi-lo em cheio mesmo assim. Sem luz, que faria de qualquer forma? Relógios, horários, tudo invenção pós-moderna, pro diabo com isso! Se o sol resolveu não aparecer hoje, não é dia. “E se até ele pode jogar o despertador na parede e dormir mais um tanto, quem disse que eu não posso?” E foi exatamente o que fez. Acordou lá pelas tantas da tarde. O cansaço havia passado, mas a fraqueza ao acordar permanecia a mesma. Olhou pela janela, ainda escuro. Saiu e voltou para realizar tarefas triviais como ir ao mercado e coisas do gênero. Nada se ouvia nos telejornais, internet, nenhum dos transeuntes parecia se importar, nenhum comentário feito nos elevadores, nada.  Isso o incomodava, mas não a ponto de fazê-lo puxar assunto com quem quer que fosse. Suspirou e seguiu seu caminho.

Terceiro dia. Ou quarto? Os dias haviam começado a se amontoar em sua mente, e o que passava ora depressa ora devagar parecia se estender num ritmo só, um longo e maçante ritmo que parecia não ter começo nem fim. Vez que outra avistava o único feixe de luz na varanda, mas até este sumiu em algum momento, não sabia dizer bem quando. A televisão lhe parecia enfadonha demais para ser ligada, as vozes de um convívio social distante se afastavam cada vez mais e os pequenos modos antes prazerosos davam-lhe asco, até mesmo aqueles bem diminutos como sorrir ou agradecer. Dava-lhe algum conforto esse negócio de noite eterna. Gostava da noite. “O que poderia dar errado?” perguntava-se.

Pouco a pouco, tudo começou a ser trabalhoso demais, custoso demais, cansativo demais.  Sua cama era seu reino e sua casa seu domínio. Não havia nada que fazer sem luz, diabos, então como podiam todos aqueles transeuntes não notar a falta do sol e seguirem em suas marchas de-casa-para-o-trabalho e do-trabalho-pra-casa, seus malditos ônibus bairro-centro e centro-bairro, sem se perguntarem nem um instante sobre isso? Talvez com a necessidade tenham se tornado como peixes abissais que desenvolvem luz própria.  Acabou por decidir que uma hora essa evolução viria para ele também, e abandonando tudo o que restava de uma vez só, dormiu mais uma vez, e outra, e outra. Sentia-se definhando e não podia se importar menos com isso, preso no estado de fraqueza após o acordar e condenado a ele enquanto o sol não voltasse para esquentar seus ombros e o fazer despertar. Sentia-se evitando a vida ao máximo, como quem evita o chão frio da cozinha pisando na ponta dos pés. Dias, semanas, meses, quiçá anos: tudo um borrão só, como uma daquelas segundas-feiras horríveis que parecem não acabar nunca.

Pouco tempo depois, a intervenção do mundo externo veio. Tudo procedia sem maiores problemas mesmo com sua ausência, mas sua falta fora sentida. Logo, um diagnóstico. “Uma merda de papel”, pensou. “Só mais uma merda de papel”. E depois vieram as pílulas que eram como a luz de uma vela: insuficiente, mas serve pra não esbarrar nos móveis. Era o bastante. Vez que outra jurava que podia sentir o calor do sol aqui ou ali, mas suspirava e seguia a vida do jeito que dava. Um dia de cada vez, um aborrecimento de cada vez...
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