Text Tuesday #5 - Sobre a vida sem celular, coisas nostálgicas e sobrevivência no mundo moderno

terça-feira, 29 de maio de 2012


É sempre com aquela cara de “meu deus, você é uma alienígena?” que eu sou recebida quando dado certo ponto da conversa pedem meu celular, eu dou de ombros e digo que não tenho um.  É sempre a mesma expressão facial mista de espanto e um pensamento de alívio “nossa, ainda bem que não sou eu.” Geralmente me perguntam se fui roubada, ou se é algo temporário, mas eu sempre reafirmo que “não, não tenho mesmo”.  É o mesmo discurso toda vez, sempre as mesmas reações, as mesmas frases... É cansativo, mas compreensível. A minha geração (e a seguinte) toda já nasceu no meio desse turbilhão tecnológico, como se fizesse parte da gente. Enquanto as outras tiveram que se adaptar a mudanças novas e revolucionárias que mudaram o seu modo de ver o mundo, nós nascemos achando isso tudo muito normal, natural, como se nascesse conosco. Uma espécie de segundo cordão umbilical que a gente adquire depois de nascer, que nos conecta com um mundo cheio de informações necessárias pra nos “alimentar” todos os dias.

Eu sou uma pessoa normal da geração Y. Eu juro. Tenho 16 primaveras e possuo facebook, twitter, um blog que de vez em quando eu deixo meio de lado e redes sociais onde eu posto coisas banais e falo bobagens que ficam registradas e documentadas alí sem me preocupar muito, igual a maioria dos jovens. Posto fotos de coisas bobinhas, reblogo gif no tumblr e checo essas coisas mais de uma vez ao dia. Faço muita coisa útil pela internet também, mas procrastino meus estudos com tecnologia tanto quanto vocês todos. Não acho que o celular seja uma invenção de satanás pra atrasar nossa vida e nos fazer queimar no fogo do inferno, pelo contrário, quando pequena eu era louca pra ter um celular. Uma das minhas primeiras memórias da infância é meu pai  e minha mãe pendurarem no cinto dentro de uma capinha de couro aquele Baby da Telesp Celular(quem lembra dele? Gente, a Telesp já virou Telefônica que virou Vivo...brincando brincando já fazem uns 13 anos disso).  Da época que quanto mais pesadão o celular mais status você tinha e  que você tinha que andar pra procurar sinal.Os celulares eram maiores que os telefones sem fio de hoje em dia, e só de lembrar das pessoas abrindo o flip, aqueles botões lisos e arredondados do celular ficando amarelos e da antena gigantesca que precisava puxar, eu dou risada. Pra quem é da época dos smartphones deve ser difícil de imaginar a época dos dumb phones, aqueles que você tinha que rezar pra funcionar a única função que eles tinham, que era fazer ligação. E eram O avanço tecnológico revolucionário.
 (o tal Baby da Telesp)


O meu primeiro celular devia custar uns duzentos réis na época, era um simples, sem flip, com uns joguinhos bobos, uma antena pequena daquelas que não precisava puxar  e o teclado tinha uma luzinha azul que eu amava. Eu devia ter uns seis anos na época e mal saía de casa, então nem minha mãe me ligava, mas na verdade nem eu ligava muito pra isso (sem trocadilhos). Usava ele de lanterna quando acabava a luz, tinha uns joguinhos marotíssimos e já estava ótimo. Depois dele, começou a minha saga de escambo de celulares com meu pai. Ele comprava uns modelos mais novos, mas como com esses modelos vinham mudanças irresistíveis (como versões melhoradas do joguinho snake) a gente sempre trocava. Nisso, eu tive um daqueles modelos antigões da Nokia. 

(PS: até o final do post encontrei, aparentemente era um Nokia 3360, só que cinza claro)



Eu dou risada só de lembrar que os avanços da época eram um celular desse que você colocava ele “de pé” e apertava uma função que fazia ele vibrar parecendo que estava dançando... E os toques monofônicos/ polifônicos, gente? Você tinha que mandar SMS, escolher a música, pagar e ter em seu celular uma versão piorada de alguma música famosa que você gostava, e todo mundo torcia pro celular tocar na frente dos amigos pra mostrar que tinha personalizado o telefone (quanto a esses toques, eu acho que o tecnobrega que toca nesses botecos fim de linha derivou deles. Sério, reparem BEM). Depois disso eu até acompanhei algumas mudanças, queria demais um celular da samsung de slide que não tinha absolutamente nada só pelo design, mas como ele custava uns seiscentos mangos eu desisti. Depois, necessitava DEMAIS um com câmera, depois com espaço pra colocar música. E seguiu-se a lista de coisas essenciais num celular para que eu pudesse sobreviver, e o escambo com meu pai continuava firme e forte. Até que, num belo dia, o celular do meu pai foi roubado e ele precisava urgente de um para o trabalho, e como eu nunca atendia e mal usava o meu pra alguma coisa além de ouvir música, ocorreu o escambo final. A partir daí começa minha odisseia.

No começo foi um saco, eu admito. Era chato pra alguém que acompanhava tudo sair direto das evoluções, do mundo dos primeiros smartphones, touchscreen e essas coisas todas, mas com o tempo minha visão mudou pra um lado até contrário, eu diria, me fazendo manter a decisão de ficar sem celular. As reações quanto a minha decisão de permanecer sem um desses enquanto possível eram chatas, continuam sendo, mas sejamos sinceros: se você tem menos de 18 anos (e isso sendo bem generosa) as chances de que você só tenha um celular pra sua mãe te ligar é imensa (isso além do despertador, ver as horas e ouvir música), e eu nunca fui de sair muito de casa, e quando saio vou pros lugares de sempre. Eu também tenho um problema sério, já que eu sempre acho que o celular está tocando quando não está, e sempre tenho a capacidade de não ouvir quando ele toca mesmo que ele seja um trio elétrico portátil e isso já me rendeu problemas demais.Tem também outro motivo essencial, que eu preciso desabafar: Eu não sei falar no telefone, inferno! Acho desconfortável, me sinto estranha, não sei o que falar, não jogo conversa fora. Se algum de vocês algum dia precisar me ligar, seja breve, conciso, diga o que precisa e pronto. Não me peça pra falar do meu dia, não pergunte dos "namoradim", por favor não se estenda. Eu não sei como funciona esse negócio de passar mais de 15 minutos no telefone. Eu também detesto ser encontrada a todo minuto, celular tocando em todo lugar, atender celular na rua, eu tenho horror a isso. Quando eu preciso sair, vez que outra levo o celular da minha mãe e deixo no silencioso, só pra ligar pra emergência e pra ela caso eu seja atropelada e corra risco de morrer e ir parar na indigência (já que raramente ando com documento no bolso. Eu sei, eu sei).Apesar disso, acho que SMS é uma invenção dos deuses, e eu uso de celulares aqui de casa sempre que preciso, também(abençoado seja o site da Oi, não nos esqueçamos dele, que serve pra mandar mensagem de graça!)
 
Hoje, não sinto falta nenhuma de um. Não digo que jamais terei, já que alguma amiga minha um dia vai acabar me dando um de presente (nem que seja um Nokia lanterninha) já que elas tiram muito sarro disso tudo (vide que toda vez que alguém pergunta quem tem crédito sempre tem um pra olhar pra mim e rir). Talvez num futuro bem próximo eu precise de um e as coisas mudem, e certamente eu vou me adaptar. Quem precisa, tem meu fixo. Quem eu preciso, tenho os números pra SMS. Dá pra me encontrar via redes sociais tranquilamente quase todos os dias, também. Sou uma pessoa muito ligada a internet e tecnologias, não nego, mas acho essencial que ao sair de casa eu saia da área de contato também. Às vezes é legal sair sem fone no ouvido,  ouvir música chata na fila do mercado, se desligar um pouco de tudo e todos, tirar o telefone do gancho, mudar o número do fixo, mudar de casa, sumir. Apesar de vivermos num mundo onde quando a gente sai de casa sente como se tivesse perdendo tudo o que acontece com todos via internet, já foi ao contrário. Eu não preciso colar em todo mundo pra saber tudo, de vez em quando é legal se encontrar com amigas numa praça qualquer, passar perto de lugares onde você já morou, pagar um croissant pra alguém e ocupar os bancos de um lugar qualquer, conversar sobre coisas que já aconteceram há semanas e você ainda não sabia, achar as pessoas de surpresa na rua e não saber o que elas tão fazendo da vida. Às vezes é legal marcar as coisas pessoalmente, não estar disponível 90% do tempo, não receber sms da operadora te acordando de madrugada e saber pra quê serve ainda uma câmera, um relógio, um despertador, um mp3/iPod, sem ter tudo isso junto dependendo de uma bateria só (ou deixar tudo isso em casa também, sei lá), sem entrar em desespero se não puder checar as mentions de qualquer lugar, se perder o carregador.Ligar 9090 de orelhão também, poxa, ou colocar o cartão telefônico(que eu colecionava quando pequena, eles tinham uns desenhos tão legais!), mais nostálgico que isso só se ainda tivessem os orelhões de ficha da já mencionada falecida Telesp (!!!). 

Apesar de aparentar ser 8 ou 80 nesse assunto ao menos num primeiro momento, não sou nem tanto ao céu nem tanto a terra. Após 4 anos sem celular, acredito que ter um é uma comodidade e não uma necessidade.  Meu único receio é de ser assaltada, o ladrão não acreditar em mim quando eu disser que não tenho o tal do “aparelho”, me darem um tiro e eu ir parar na indigência. É sério, eu juro. Se vocês me verem estirada no meio da rua, por favor, chamem uma ambulância e me identifiquem. Minha mãe agradece.
Blog contents © The Neon Lightning 2012. Blogger Theme by Nymphont.